Compreendendo a dimensão da dominação no campo ideológico, agora pretendo comentar acerca da existência de flexibilidade conceitual e líquida, na qual estamos imersos. Primeiramente, é importante ressaltar que alguns neste ponto,podem se opor, e que nada faço, ou justifico, para afastar a crítica. Ao contrário, é importante que ela exista e haja intervenção neste plano da discussão. Ao meu ver, isto daria, além de contribuições, a importância que o assunto merece. Portanto, dito isto, estamos abertos a toda e qualquer alteração plausível nas linhas que se seguem abaixo.
A existência de flexibilidade conceitual, é como um grande efeito antagônico onde o ser deixa de objetivar seus anseios e valores, passando a limitar seu comportamento a partir dos “consensos sociais”, ou seja, ao governo do senso comum o indivíduo nortearia sua existência - lógica de que para tudo há um conceito instituído e “petrificado”, e que nós, apenas nos apropriamos rigidamente do que está construído ideologicamente no mundo. Isso talvez, expresse a força da engrenagem de controle social, mas por outro lado, também confessa, que em virtude de uma infinidade de “razões” inventadas, se tornou tão mais desejável aos nossos olhos não construí-las, nem manter preocupações nesse sentido.
Os “conceitos” sociais se objetivam no comportamento dos sujeitos, logo, temos o seguinte resultado, enunciando uma sentença tradicional e antiga da Filosofia: veritas est adaequatio rei et intellectus (verdade é adequação da coisa com o conhecimento, e invertendo, a adequação do conhecimento com a coisa). Que tipo de “verdades” ou conhecimentos foram dados ao povo todos esses anos, levando em conta nossa sociedade classista, que preza, não só pela desigualdade, mas também pela estratificação social resultante desta? Que tipo de educação foi destinada a uma classe e outra?
Que tipo de adequação estamos fazendo do conhecimento que nos é ofertado com a nossa existência? Somos essa “coisa” adequada ao conhecimento mutilado que nos deram? Aqui se pode refletir, sobre este momento no qual atravessamos: “era da informação”! Ora, todos sabem que a informação também sofre suas mutilações, e que a mídia e outras instituições se aproveitariam da desinformação para manipular os fatos, e assim “informar”; ou somos tão ingênuos e negamos isso? Todas as idéias, nessa lógica, são separadas de seus autênticos referenciais ideológicos ou contextos de maneira proposital! Haveria um modo melhor de se criar ideologia e engano a não ser separando as idéias e os fatos da conjuntura em que existem?
Quero aqui ampliar, essa discussão sobre essa maneira flexivelmente conceitual de existência e minar essa concordância de que não há conhecimento criminoso, povoando nossas mentes, induzindo um comportamento em massa e à grosso modo o status quo da “razão coletiva”, porém não elevando isto ao estado de determinismo, logo porque somos seres com posse histórica. Os sujeitos parecem buscar a verdade a partir dessas construções sociais consensuais massificadas: a essência do ridículo, a aplicação da lei do menor esforço, da busca do “normal”, da ”moda”, do “comum” e do “cotidiano” com a ousadia considerá-las “diferente” ou “novo”. Aqui vemos o quanto é forte a tendência à naturalização do absurdo, prerrogativa inclusive neoliberal, porém, no caso deste modelo econômico, voltada para a pregação do individualismo e da concorrência, mas que tende à padronização social como estímulo ao consumo.
Desejo aqui citar um exemplo simples para compreensão, sem que isso possa remeter preconceito. Por exemplo, temos um conceito social do que é ser emo. Geralmente, nosso entendimento sobre esse grupo em relação ao que eles expressam sem uma significação própria e bem entendida, não ultrapassa o campo do visual, algo que ainda os próprios não conseguiram superar. Em tese para ser emo, teríamos que aderir à moda, ao corte de cabelo, ao sentimentalismo moderno e algumas formas comportamentais comuns aos mesmos e facilmente seríamos aceitos num grupo de emos. Deste modo, não se viu aqui mencionar nada em relação ao caráter (não há assimilação de caráter clara, a aparência se sobressai e o caráter é subjugado em detrimento dela), à questão ética ou raiz étnica. Há certa valorização no campo da aparência como padrão de aceitação desse grupo – será a aparência superior ao caráter? Diferentemente do que ocorre entre um povo indígena, onde nunca seríamos aceitos num grupo dessa natureza se somente nos “vestíssemos” como índios, pintássemos o corpo, cortássemos o cabelo a tribo, usássemos cocar ou aderíssemos a outros costumes peculiares.
Ser emo assumiria aqui a forma de existência de flexibilidade conceitual, porque surgiu por meio de um padrão social, de um conceito formado por um grupo que se disseminou socialmente, assumindo uma forma de comportamento, no qual o sujeito pode depois vir a abandonar tal modelo, já que não há raiz étnica intrínseca no ser emo ou nos indivíduos com tal afinidade. Ao contrário, vemos a negação da própria realidade cultural, sendo este modelo visivelmente uma opção circunstancial e de ordem consumista, provavelmente efêmera ou possuindo certa duração. Já para o indígena, ser índio é significativo - possui inclusive traços genéticos, é importante lembrar - ou seja, tem um significado cultural forte, parte de uma raiz étnica com força tamanha, vivenciada desde o nascer, além de toda uma construção histórico-cultural, que no caso do primeiro grupo parece ser um tanto quanto indefinida em todos esses aspectos.
Não desejo que o leitor aqui entenda como comparação entre um grupo e um povo, mas compreenda a explanação como um meio de facilitar a demonstração daquilo que estou abordando neste texto, por via de certas peculiaridades. Quero também lembrar aqui, outras questões que ajudam nesse entendimento correlacionando com o escrito por Theodor Adorno em sua obra Mínima Morallia, entre elas estão os seguintes pontos:
• As pessoas querem experimentar a vida como quem consome uma substância de efeito imediato, anulam o caráter em detrimento da aparência.
• O comportamento de marionete e o comportamento irreal e controlado de uma personagem que sai da TV e assume papel de costume na “vida real”. Sujeitos convertidos em objetos das tendências e dos meios de comunicação em massa.
• Uso da produção visual de massa como forma de degradação e degeneração da vida social, como circunscrição dos padrões a serem adotados, transportando tudo para a esfera do consumo, objetivo direto da produção em massa.
• Indivíduos como caricatura dos personagens da TV, estilo de vida, maneira de pensar e vestir cada vez mais impregnado com o conteúdo das “grandes tendências”, enquanto a cultura autêntica em relação a estas esferas é subjugada, tratada como atraso, “regionalismo” e desprezo.
• Dissolução histórica do sujeito – sujeito para si, e não em si. Pregação da atuação social de forma individual, o sujeito se envolve com o meio coletivo agindo individualmente.
• O propósito de anulação dos indivíduos (sensação de que estão tão seguros de uma autonomia que não existe) já ultrapassa a forma de subjetividade, se materializa no mundo, a ponto de estimular o homem a tornar-se infiel a si mesmo.
• A consideração subjectiva, mesmo criticamente acutilante acerca de si mesma, cola-se um [elemento] sentimental e anacrônico: algo do lamento pelo curso do mundo, que seria de rejeitar não pelo que neste há de bondade, mas porque o sujeito que se lamenta ameaça ancilosar-se no seu modo de ser, cumprindo assim de novo a lei do curso do mundo. A fidelidade ao próprio estado da consciência e da experiência está sempre sujeita à tentação de se transformar em infidelidade, enquanto renuncia ao discernimento que transcende o indivíduo e chama tal substância pelo seu nome.
A existência de flexibilidade conceitual e líquida é aquela em que o ser vive em função dos paradigmas, é moldados por eles e a flexibilidade é tão densa, que o ser não tem sustentação para agir historicamente, porque é como o líquido que se adéqua ao recipiente em que é colocado. Os conceitos existentes são mais fortes do que sua ação intelectual, uma espécie de destruição "criativa" do mundo que aponta e sugere a regularidade desta condição. Em verdade, uma importação dos problemas sociais em que temos a criação de uma massa social redundante (ver Vidas Desperdiçadas de Bauman). Portanto, gostaria de lembrar que a cultura social está sendo submetida à ditadura das grandes tendências, enquanto a raiz étnica vincula-se ao esquecimento e ao desprezo social.
Não me interessa contrariar sua razão social de ser tal qual como optou, só acredito que não seja necessário, nossas escolhas serem resultado da mercantilização cultural, já que não desejamos ser um objeto projetor de uma cultura desenhada para destruição de nossas raízes étnicas. Somente com uma razão étnica forte é que podemos nos construir como gente e vermos a boniteza da cultura popular se manifestando autenticamente, fortalecendo os que a constroem, e que deram, e dão suas contribuições, tornando-nos capazes de nos sobressairmos às intenções de aniquilação cultural dos povos. Um fim à lógica de sermos como um líquido que se adéqua ao recipiente construído pelas vias ideológicas maldosas. Não à destruição da cultura dos povos e à idéia existencial de passividade e obediência ao que chamam de “cultura dominante”!
(Autor: Luziel Costa Carvalho)
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